O ultramaratonista brasileiro Alexandre Sartorato concluiu, no sábado (12), sua segunda Volta ao Mundo correndo uma ultramaratona por dia. A jornada começou em 31 de março, nas Pirâmides de Gizé, no Egito, e terminou 102 dias depois, após cruzar 27 países em cinco continentes.
Durante o trajeto, Sartorato correu de 12 a 18 horas por dia, enfrentando temperaturas que variaram de quase 40°C no deserto egípcio a -10°C nos Alpes Suíços. Ele lidou com granizo, neve, altitudes superiores a 2.300 metros e mudanças bruscas de clima, que afetaram diretamente sua imunidade e desempenho físico.
Além do desgaste climático, o desafio impôs mudanças constantes de fuso horário, alimentação precária e privação de sono. Em muitos trechos, Sartorato não conseguiu encontrar refeições completas e chegou a correr longas distâncias sem comer ou beber água. Dormiu diversas noites em uma barraca montada no chão, sem acesso a pousadas.
“Quis estabelecer uma marca histórica. Para isso, precisei me preparar para o pior. Treinei dormindo em uma barraca dentro da sala da minha casa. Sabia o que enfrentaria”, conta o atleta.
Marcas no corpo e resistência mental
Ao longo da jornada, Sartorato desenvolveu assaduras, bolhas, lesões musculares e perdeu as unhas dos dedões. Correr em estradas com inclinação lateral de até 15% causou dores nas costas, pernas e joelhos. Em países que proibem corrida em rodovias, ele seguiu por trilhas de terra, pedras e terrenos acidentados.
Mesmo assim, distribuiu energia e significado: ao fim de cada corrida diária, entregou mais de 100 camisetas que homenageavam pessoas, entidades ou locais. “Cada dia teve uma história diferente. Tudo vai virar documentário e livro: Minha família chamada mundo.”
Durante os 102 dias, ele usou 60 pares de meias, 8 calças de lycra e 26 pares de tênis — feitos com material reciclado. Sartorato também quer ajudar a desenvolver calçados de alto desempenho com preços acessíveis.
Propósito social e legado
Mais do que uma façanha esportiva, a expedição levantou bandeiras sociais importantes. Sartorato correu contra a fome, o racismo e a desigualdade. “Tive uma infância difícil. Sei como dói ver uma mãe sem comida para dar ao filho. Essa causa é minha”, afirma.
Cenas da jornada farão parte de um filme sobre sua vida. A travessia também serviu de base para um estudo sobre os limites do corpo humano, com exames antes e depois do desafio e monitoramento de indicadores como frequência cardíaca e glicemia.
“Vamos entender se existe algo diferente no meu organismo ou se tudo vem da fé, da disciplina e da determinação”, diz.
Próximos desafios
Sartorato planeja dar uma nova Volta ao Mundo em 80 dias, incluir a Antártida no trajeto e estabelecer um novo recorde de quilômetros percorridos em um único ano.
Natural de Cubatão (SP), o atleta leva o nome da cidade como símbolo de superação. Em 2003, percorreu o Brasil do Oiapoque ao Chuí em apoio ao INCA. Em 2007, tornou-se o primeiro homem a completar uma Volta ao Mundo correndo uma ultramaratona por dia.
“Tenho certeza de que honrei o nome de Cubatão, do Brasil e de todos que me acompanham. Passei por dificuldades inimagináveis e não desisti. Estou muito orgulhoso do que fiz.”

