Fotos: Nayara Andrade

Natural do Jóquei Clube, em São Vicente, a fotógrafa Nayara Andrade construiu uma carreira que ultrapassou fronteiras. Hoje, acumula mais de 240 prêmios na produção visual e recebeu três vezes o chamado Oscar da Fotografia.

O reconhecimento, porém, veio depois de uma trajetória marcada pela persistência e pelo aprendizado na prática.

Primeiros passos aconteceram em um navio

Aos 19 anos, Nayara embarcou em um navio para trabalhar como fotógrafa. O detalhe é que ela ainda não dominava a profissão.

“Eu não sabia ligar uma câmera fotográfica, eu mal falava algumas palavras em inglês, mas eu tinha muita vontade de aprender”, conta.

Para conseguir embarcar, vendeu a própria moto e investiu o dinheiro na compra dos equipamentos necessários.

No primeiro dia de trabalho, recebeu uma câmera e precisou aprender na prática. A missão era fotografar os passageiros e vender as imagens.

Nayara percebeu, então, que precisava criar fotografias que despertassem o desejo de guardar aquela lembrança.

“Na minha cabeça, como as pessoas vão comprar as fotos? Elas têm que sair bonitas. Então eu comecei a inventar algumas coisas com as pessoas, a buscar espontaneidade”, lembra.

Em pouco tempo, tornou-se a retratista oficial do navio e, depois, fotógrafa das excursões.

Durante dez meses embarcada, conheceu 17 países, passou 11 vezes pelo Egito e visitou locais como a Acrópole, na Grécia, e o Coliseu, na Itália. Também navegou pelo Rio Nilo.

O momento que mudou sua relação com a fotografia

Foi no Egito que aconteceu um dos momentos decisivos de sua trajetória.

Depois de fotografar um grupo de crianças que trabalhava próximo às pirâmides, Nayara voltou na semana seguinte com cópias impressas das imagens.

A reação das crianças mudou sua forma de enxergar a fotografia.

“Eles pegavam aquela foto, olhavam um amigo preso naquele papel, se olhavam presos no papel e ficavam me perguntando: ‘Como isso está acontecendo? Como a gente está aqui? Você está aqui dentro?’”, recorda.

A experiência mostrou que uma fotografia poderia representar muito mais do que uma imagem bonita. Poderia preservar um momento único.

No navio, ela também registrava passageiros em ocasiões especiais, como luas de mel, encontros familiares e viagens que poderiam ser únicas na vida.

“Eu me descobri como fotógrafa no Egito. Ali eu resolvi o que eu queria fazer com o resto da vida: pegar momentos importantes na vida das pessoas e torná-los eternos.”

De volta ao Brasil, um novo começo

“Agradeço ao Criador por me ensinar a criar” é uma frase importante na trajetória de Nayara. A mensagem acabou eternizada em uma tatuagem na nuca.

De volta ao Brasil, a fotógrafa enfrentou uma nova realidade. Retornou sem moto, sem relacionamento e sem sequer ter um quarto na casa da mãe.

Mesmo assim, decidiu continuar na fotografia.

Com algumas imagens impressas e um CD com seu trabalho, começou a visitar estúdios da região em busca de uma oportunidade.

Em um dos testes, ouviu de um fotógrafo que suas imagens eram ruins e que deveria procurar outra profissão.

A crítica, no entanto, teve outro efeito.

“Eu falo que ele fundou a minha empresa. Aquilo me marcou muito. Eu gostava do que fazia e acreditava que aquilo era bom, mesmo não tendo experiência”, conta.

Vieram os primeiros casamentos, festas de família e ensaios. Aos poucos, o olhar considerado diferente passou a se transformar em sua assinatura.

Uma carreira marcada pela reinvenção

Com o crescimento da carreira, Nayara ampliou a divulgação de seu trabalho para além da Baixada Santista.

Durante a pandemia, quando o setor de eventos parou, ela teve tempo para olhar para a própria trajetória e compreender o significado das imagens produzidas ao longo dos anos.

“90% das minhas fotos premiadas são de momentos decisivos, que, se eu fizesse a foto um segundo antes ou um segundo depois, ela não ia existir”, explica.

Depois de mais de 15 anos de carreira, Nayara também decidiu fazer uma pausa.

Em 2026, reduziu os trabalhos e recusou convites e contratos enquanto reorganizava a própria vida. Nesse processo, voltou para São Vicente e construiu praticamente do zero o espaço onde trabalha atualmente.

A nova fase representa mais uma reinvenção profissional. Mesmo depois de tantas premiações, ela continua buscando novos caminhos na fotografia e no audiovisual.

“Depois de 15 anos, ainda quero me reinventar. E, se perguntarem hoje quais seriam meus planos futuros, é continuar minha missão”, afirma.

Mais do que prêmios, histórias

Para Nayara, o reconhecimento mais importante não está apenas nos troféus.

Está naquilo que uma fotografia consegue provocar anos depois de ser feita: a possibilidade de voltar a um momento, lembrar de alguém e sentir novamente aquilo que estava sendo vivido.

“Independentemente daquilo que você faça, primeiro, você tem que amar. Tudo que você faz com amor e com vontade dá dinheiro, não só pelo valor financeiro, mas pelo reconhecimento e pela satisfação. E saber que realmente está fazendo a diferença.”

Redação Fatos Fontes

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