Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro revelam detalhes do almoço que o ex-banqueiro organizou, no fim de 2023, para o ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), em Campos do Jordão (SP). O encontro contou com menu exclusivo e vinhos de “safras antigas e boas”.
Vorcaro não compareceu ao almoço. Ele pediu ao chef José Maria Meira que evitasse mencionar seu nome para “não constranger o convidado principal”. Mais tarde, Vorcaro demonstrou irritação ao descobrir que Meira havia tirado fotos com Moraes e registrado o contato do ministro no celular.
O relatório da Polícia Federal elaborado sob determinação do ministro André Mendonça já mencionava o encontro, mas sem apresentar detalhes. O documento também reuniu trocas de mensagens entre Vorcaro e Moraes. O STF ainda avalia se abrirá uma investigação sobre o ministro com base no relatório.
O Globo divulgou inicialmente as conversas sobre o almoço. A Folha de S.Paulo também teve acesso às mensagens.
A assessoria de imprensa de Moraes não respondeu aos questionamentos da reportagem. Meira também não se manifestou.
Menu e vinhos
Em 26 de dezembro, Vorcaro procurou Meira e disse que precisava dele para cumprir “uma missão”: preparar uma refeição para seu “convidado mais importante até hoje”.
Meira, que chamava Vorcaro de “boss” e “príncipe”, disse que faria as compras. O chef sugeriu trufas, caviar, vieira, foie gras e wagyu. “Se tiver alguma recomendação especial me avisa aqui! Casa Vorcaro está sempre pronta!!!!!”, escreveu.
Vorcaro pediu quatro vinhos de sua adega. Em seguida, corrigiu a quantidade para cinco garrafas e determinou que eles tivessem “safras antigas e boas”. Os dois também discutiram os rótulos que serviriam durante o almoço.
No dia do encontro, Meira enviou a Vorcaro fotos das mesas preparadas para Moraes e seus convidados. Vorcaro observou que as latas de caviar já colocadas sobre a mesa poderiam deixar o ambiente exageradamente pomposo.
“Quero almoço espetacular mas sem forçar a barra de aparecer”, escreveu.
Meira respondeu em uma mensagem de áudio que retiraria as latas e as levaria no momento adequado. Segundo ele, havia colocado os produtos sobre a mesa apenas para mostrar a experiência que pretendia proporcionar aos convidados.
Pedido de discrição
Vorcaro também pediu discrição ao chef.
“Ze, outra coisa, evita falar nome, ate o meu, pra nao constranger o convidado principal. So se ele perguntar algo de mim aí pode falar normalmente. Mas caso contrario deixa o momento ser algo como se fosse dele perante os demais convidados, assim evita contrange lo”, escreveu.
Depois do almoço, outro funcionário contou a Vorcaro que Meira havia tirado fotos com Moraes e registrado o telefone do ministro. Vorcaro reclamou da situação e disse que não havia gostado do episódio.
Posteriormente, o funcionário explicou que o próprio ministro havia pedido as fotos.
Em agosto de 2025, pouco antes do julgamento da trama golpista, Meira enviou novamente a Vorcaro as fotos que havia tirado com Moraes. Na mensagem, escreveu: “Esse cara está precisando de um abraço……. É claro um Pouco de caviar com claras e gemas…..”.
Outras mensagens
Mensagens encontradas pela Polícia Federal em um dos aparelhos apreendidos de Vorcaro também mostram que o ex-banqueiro perguntou a Moraes se deveria deixar o país dois dias antes de sua prisão, em 17 de novembro de 2025.
Vorcaro se preparava para embarcar em um jato particular com destino a Malta. Em uma mensagem, perguntou: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. No dia anterior, também escreveu: “Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?”.
Além disso, segundo a PF, o ministro editou um contrato de R$ 131 milhões entre o escritório de Viviane Barci de Moraes e o banco Master antes da assinatura. Documentos da Receita Federal indicaram pagamentos de R$ 80,2 milhões ao escritório ao longo de dois anos.

