Transformar um negócio em uma rede de franquias exige planejamento, organização e atenção a diferentes aspectos jurídicos e operacionais. Antes de expandir, o empreendedor precisa garantir que a marca esteja protegida, que o modelo de negócio seja lucrativo e que os processos possam ser reproduzidos por outras pessoas sem comprometer a qualidade dos produtos e dos serviços oferecidos.
Franquia
O advogado especialista em registro de marca César Capitani aborda os principais cuidados que um empreendedor deve ter antes de decidir transformar seu negócio em uma franquia.
“Antes de tudo, o empresário precisa cuidar do registro da marca no INPI, afinal, ele vai permitir que outras pessoas explorem comercialmente aquele nome. Além disso, precisa ter um negócio lucrativo, e, principalmente, um know-how bem desenvolvido. É esse conhecimento que permite reproduzir o negócio em outros lugares.”
Por exemplo, imagine uma hamburgueria em Santos que abre uma franquia em Curitiba. O cliente precisa encontrar o mesmo hambúrguer, o mesmo atendimento e a mesma qualidade nas duas unidades. Se o empresário não consegue ensinar outra pessoa a reproduzir essa experiência, ainda precisa organizar melhor o negócio antes de franquear.
Potencial
Contudo, um ponto importante é identificar se um negócio realmente tem potencial para se tornar uma franquia de sucesso.
O advogado comenta que começaria avaliando se o negócio pode ser reproduzido por outra pessoa sem depender da presença do dono. Não basta ter uma loja cheia e faturar bem. É preciso saber exatamente como o negócio funciona, quanto custa manter uma unidade, qual é a margem de lucro e como transmitir esse conhecimento ao franqueado.
“Se uma pizzaria faz sucesso porque só o proprietário sabe preparar a massa, por exemplo, ele precisa conseguir ensinar essa receita e todo o funcionamento da empresa antes de pensar em franquias. O segredo é fazer com que o negócio funcione da mesma forma, independentemente de quem esteja administrando.”
Erros
Um dos maiores erros que os empresários cometem ao tentar expandir seus negócios por meio do franchising, é achar que basta ter uma marca conhecida e um negócio lucrativo para começar a vender franquias.
“Se o empresário não tem processos definidos, manuais, treinamento e uma estrutura de suporte, cada franqueado acaba trabalhando de um jeito. Outro erro é não proteger a marca antes de expandir. Imagine vender dez franquias e depois descobrir que existe um problema com o registro daquele nome. O prejuízo pode atingir toda a rede.”
Lado jurídico
Aliás, é relevante pensar em quais aspectos jurídicos precisam ser estruturados antes de uma empresa começar a oferecer franquias ao mercado?
Segundo Capitani, o registro da marca é um dos primeiros pontos que precisam ser verificados. A legislação permite franquias com marcas registradas ou com pedido de registro em andamento, mas o ideal é já ter o registro concedido para evitar problemas.
“Também é necessário preparar a Circular de Oferta de Franquia, a COF, e os contratos que vão estabelecer as regras da relação. Esses documentos precisam deixar claro quanto o franqueado vai pagar, quais direitos terá, que suporte receberá e quais obrigações deverá cumprir.
A COF deve ser entregue pelo menos 10 dias antes da assinatura do contrato ou de qualquer pagamento relacionado à franquia.”
Processo
O advogado explica como funciona o processo de transformar uma empresa em uma rede de franquias, e quais são as etapas mais importantes dessa preparação.
“Primeiro, o empresário precisa transformar o conhecimento que tem sobre o próprio negócio em algo que possa ser ensinado. Por exemplo, imagine uma cafeteria. Não basta entregar ao franqueado a receita do café. É preciso ensinar como atender o cliente, preparar os produtos, controlar o estoque, escolher fornecedores e administrar a unidade.”
Portanto, tudo isso deve estar organizado em manuais e treinamentos para que o consumidor encontre a mesma experiência em qualquer loja da rede.
Ao mesmo tempo, é preciso proteger a marca, avaliar os custos, definir as taxas e preparar os contratos. Só depois dessa estruturação é que a empresa estará em condições de começar a oferecer franquias.
Franquia existente
Porém, para quem deseja investir em uma franquia já existente, alguns documentos e informações devem ser analisados antes de assinar o contrato.
“Eu começaria pela COF (Circular de Oferta de Franquia) e pelo contrato, mas antes disso, verificaria se a marca está registrada no INPI, quanto custa montar a unidade, quais taxas serão cobradas e quanto realmente sobra de lucro depois de pagar todas as despesas.
Também procuraria saber como funciona o treinamento e se o franqueador realmente oferece suporte. E conversaria com outros franqueados, inclusive aqueles que deixaram a rede. Uma pergunta que eu sempre acho interessante fazer é se aquela pessoa, sabendo tudo o que sabe hoje, investiria novamente naquela franquia.”
Conflitos
Assim como, existem desafios na relação entre franqueador e franqueado e é importante saber como evitar conflitos que possam comprometer o negócio.
“Um dos maiores desafios é manter o padrão da rede. O franqueador ensina uma forma de trabalhar, mas o franqueado precisa seguir aquilo no dia a dia. Se cada unidade começa a mudar receitas, fornecedores, atendimento ou qualidade dos produtos, a marca inteira pode ser prejudicada.”
Também existem conflitos quando o suporte prometido não é entregue ou quando surgem cobranças que não estavam claras. Por isso, além de contratos bem feitos, é fundamental que exista treinamento, acompanhamento e uma comunicação constante entre as partes.
Crescimento
Por fim, Capitani, com sua experiência, avalia quais fatores são determinantes para que uma rede de franquias cresça de forma sustentável e alcance o sucesso.
“Para mim, o mais importante é a qualidade do produto e do atendimento. É isso que faz o cliente voltar, indicar para outras pessoas e, consequentemente, o negócio crescer.
Dinheiro para montar uma loja bonita, reformar o espaço ou investir em publicidade, qualquer rede com recursos consegue. Mas o que realmente faz a diferença é a experiência que o cliente tem naquele lugar.”
Aliás, ele acrescenta que diversas pessoas associam franquias a números, dezenas de unidades e processos tão padronizados que parecem uma produção em série (o que de certa forma não está errado), mas isso pode passar a impressão de que o cliente é apenas mais um número.
Por isso, ele acredita que a diferença está nesse ponto, ou seja, as redes que conseguem crescer sem perder o atendimento próximo, humano e acolhedor saem na frente em termos de preferência do público.
Serviços
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