Laura Cardoso morreu aos 98 anos, em São Paulo. A família confirmou a morte nesta terça-feira (18) e comunicou a despedida nas redes sociais da atriz. A causa da morte não foi divulgada.
Fernando Faria, bisneto da artista, publicou uma mensagem em homenagem à atriz. “Nossa grande estrela se despediu de nós”, escreveu. A despedida encerra uma das trajetórias mais longas da dramaturgia brasileira, construída ao longo de 82 anos de trabalho.
O velório ocorre nesta terça-feira (18), das 8h às 14h, na Funeral Home, na Bela Vista, em São Paulo. Familiares, amigos, colegas de profissão e admiradores podem prestar as últimas homenagens à atriz.
Laura deixa uma carreira que atravessou diferentes fases da cultura brasileira. Ela começou no rádio, participou dos primeiros anos da televisão, conquistou espaço no teatro, construiu uma trajetória sólida no cinema e continuou trabalhando mesmo depois dos 90 anos.
A infância no Bexiga e o primeiro contato com a arte
Nascida Laurinda de Jesus Cardoso, Laura cresceu no Bexiga, bairro tradicional de São Paulo. A família tinha origem em Trás-os-Montes, região de Portugal, e manteve em casa o hábito de valorizar a leitura e as histórias.
Ainda criança, Laura gostava de ler para os pais. O contato com os livros despertou sua curiosidade e ajudou a desenvolver uma relação muito próxima com a palavra.
Na escola, a menina também encontrou espaço para mostrar o talento. Laura estudava em um colégio de freiras e passou a recitar textos para as colegas. Aos poucos, percebeu que gostava de interpretar e de transformar as histórias que lia em experiências para outras pessoas.
Esse interesse ganhou força durante a adolescência. Aos 16 anos, Laura encontrou no rádio a primeira grande oportunidade profissional.
O rádio abriu as portas para uma carreira histórica
Laura começou a carreira na Rádio Cosmos. Na emissora, participou de programas de auditório, humorísticos e radionovelas.
Naquela época, o rádio ocupava um lugar central no cotidiano das famílias brasileiras. Os atores precisavam usar a voz, a entonação e a imaginação para construir personagens que o público não conseguia enxergar.
Laura desenvolveu rapidamente essa habilidade.
Em 1946, chegou à Rádio Tupi. Lá, conheceu Fernando Balleroni, ator, diretor e roteirista que mais tarde se tornaria seu marido.
Depois, a atriz seguiu para a Rádio Bandeirantes. Além dos trabalhos na emissora, integrou grupos de radioteatro que apresentavam pequenos esquetes em circos da periferia. Muitas vezes, os artistas realizavam essas apresentações sem receber pagamento.
A experiência ajudou Laura a conhecer diferentes públicos e a desenvolver ainda mais a capacidade de interpretar personagens diante de plateias variadas.
Em 1948, ela ganhou destaque como a menina Laurinha em “Ciranda, Cirandinha”, na Rádio Cultura.
A chegada à televisão
A experiência no rádio preparou Laura para uma nova etapa da carreira. Em 1952, ela estreou na televisão com “Tribunal do Coração”, na TV Tupi.
A televisão ainda dava os primeiros passos no Brasil. Os programas tinham poucos recursos e muitos teleteatros aconteciam ao vivo. Qualquer erro exigia improviso e rapidez dos atores.
Laura encarou esse desafio e rapidamente se tornou uma das principais intérpretes daquele período.
Durante aproximadamente 15 anos, integrou o elenco fixo de teleteatros da TV Tupi. Participou de atrações como “TV de Vanguarda”, “TV de Comédia” e “Grande Teatro Tupi”.
Esses programas apresentavam adaptações de clássicos da literatura e exigiam dos atores uma preparação intensa. Laura trabalhou com nomes importantes da dramaturgia brasileira e acompanhou de perto a transformação da televisão em um dos principais meios de entretenimento do país.
Na década de 1960, também trabalhou em emissoras do Rio de Janeiro. Depois, voltou para São Paulo e passou por Bandeirantes, Tupi e Record.
Entre os trabalhos dessa fase estão “As Pupilas do Senhor Reitor”, “Os Inocentes” e “Ídolo de Pano”.
Uma nova fase na televisão
Em 1981, Laura Cardoso estreou na TV Globo com “Brilhante”, novela de Gilberto Braga.
A partir daí, a atriz alcançou novas gerações e ampliou ainda mais sua presença na televisão. Sua capacidade de transitar entre personagens dramáticos, populares e cômicos fez com que ela conquistasse espaço em diferentes produções.
Laura participou de mais de 20 novelas na emissora. Entre os trabalhos de maior destaque estão “Mulheres de Areia”, “A Viagem”, “Irmãos Coragem”, “Explode Coração” e “Caminho das Índias”.
Ela também participou de minisséries e produções especiais.
Em “Hoje É Dia de Maria”, de 2005, Laura assumiu a função de narradora e recuperou uma característica que fazia parte de sua trajetória desde o rádio: a capacidade de contar histórias apenas com a força da voz e da interpretação.
A atriz também integrou os elencos de “Chocolate com Pimenta”, “O Profeta”, “Araguaia”, “Flor do Caribe”, “Império” e “O Outro Lado do Paraíso”.
Sua última novela foi “A Dona do Pedaço”, exibida em 2019.
O teatro sempre ocupou espaço importante
Mesmo com o sucesso na televisão, Laura nunca deixou o teatro de lado.
Ela estreou no teatro adulto em 1959, com “Plantão 21”, de Sidney Kingsley, sob direção de Antunes Filho. O trabalho marcou uma nova etapa em sua carreira e abriu espaço para outras experiências nos palcos.
Laura voltou a trabalhar com Antunes Filho em “Vereda da Salvação”, em 1993.
Outro grande momento veio em 1991, quando atuou em “Vem Buscar-me que Ainda Sou Teu”, dirigida por Gabriel Villela. A interpretação rendeu prêmios e reforçou o reconhecimento da atriz no teatro.
Ao longo das décadas, Laura continuou alternando trabalhos entre televisão, cinema e palco.
Até 2016, participou da peça “A Última Sessão”, de Odilon Wagner. No espetáculo, interpretou uma psicanalista.
A relação com o teatro também influenciou a maneira como Laura enxergava a profissão. Ela defendia o respeito ao texto e acreditava que o ator precisava compreender a intenção do autor antes de construir um personagem.
O cinema também ganhou personagens marcantes
A carreira de Laura Cardoso não ficou restrita ao rádio, à televisão e ao teatro. O cinema também ocupou um espaço importante em sua trajetória.
Em 1996, participou de “Terra Estrangeira”, de Walter Salles e Daniela Thomas.
Em 2000, protagonizou “Através da Janela”, de Tata Amaral. O papel rendeu reconhecimento no Festival de Recife e mostrou mais uma vez a capacidade da atriz de conduzir personagens complexos.
Em 2004, Laura ganhou o prêmio de melhor atriz coadjuvante no Grande Prêmio Cinema Brasil por “O Outro Lado da Rua”, de Marcos Bernstein.
A atriz continuou ligada ao cinema mesmo em idade avançada.
Em 2025, aos 97 anos, protagonizou o curta-metragem “Dona Rosinha”, dirigido por Kk Araújo. A história acompanha uma idosa que enfrenta o abandono da própria filha em um ponto de ônibus.
O trabalho mostrou que Laura ainda encontrava espaço para novos desafios mesmo depois de mais de oito décadas de carreira.
Uma atriz que atravessou gerações
Poucos artistas brasileiros conseguiram acompanhar tantas transformações da cultura nacional quanto Laura Cardoso.
Quando iniciou a carreira, o rádio dominava a comunicação e as radionovelas reuniam milhões de ouvintes. Poucos anos depois, Laura participou do nascimento da televisão brasileira.
Ela acompanhou a evolução dos teleteatros, o crescimento das novelas, a consolidação das grandes emissoras e as mudanças na produção audiovisual.
Também viu o cinema brasileiro passar por diferentes fases e manteve uma relação constante com o teatro.
Essa capacidade de se adaptar ajudou Laura a permanecer relevante durante décadas.
A atriz trabalhou com profissionais de diferentes gerações e dividiu cenas com artistas que começaram a carreira muitos anos depois dela. Ao mesmo tempo, tornou-se uma referência para novos atores.
A dedicação ao trabalho até os últimos anos
Laura nunca tratou a idade como um motivo para abandonar a profissão.
Mesmo depois dos 90 anos, continuou participando de projetos e homenagens. Em 2024, recebeu destaque em um programa especial que revisitou sua trajetória artística.
Em 2025, também ganhou uma estrela na Calçada da Fama dos Estúdios Globo.
No mesmo período, participou de uma gravação especial de fim de ano. Durante a produção, Laura fez questão de ficar em pé ao lado dos outros artistas e participar do momento com entusiasmo.
A atitude resumiu uma característica que marcou sua vida profissional: o desejo de continuar trabalhando.
Laura entendia a atuação como uma profissão que exigia entrega. Por isso, mesmo depois de décadas diante das câmeras, continuava interessada em novos personagens e projetos.
Homenagens reconheceram uma trajetória única
Ao longo dos anos, Laura recebeu diversos prêmios e homenagens pelo conjunto da carreira.
No teatro, conquistou reconhecimento por trabalhos que demonstraram sua versatilidade. No cinema, recebeu prêmios por atuações em filmes de diferentes estilos. Na televisão, tornou-se uma das atrizes mais lembradas pelo público brasileiro.
Em 2023, recebeu o Troféu Oscarito no Festival de Cinema de Gramado, uma das principais homenagens destinadas a grandes nomes do cinema brasileiro.
Em 2024, ganhou uma homenagem especial no programa “Tributo”, que revisitou momentos importantes de sua vida profissional.
Já em 2025, recebeu uma estrela na Calçada da Fama dos Estúdios Globo.
Essas homenagens reconheceram não apenas os personagens que Laura interpretou, mas também a importância de sua trajetória para a cultura brasileira.
Uma história que começou com a leitura
No começo da vida, Laura gostava de ler para os pais. Décadas depois, tornou-se uma das maiores contadoras de histórias da dramaturgia brasileira.
Essa ligação com a palavra acompanhou toda a carreira.
No rádio, Laura usou a voz para criar personagens. No teatro, utilizou o corpo e a presença em cena. Na televisão, conquistou o público com personagens que entraram para a memória popular. No cinema, encontrou espaço para trabalhos mais intimistas.
Em cada formato, encontrou uma maneira diferente de contar histórias.
Por isso, seu legado vai além das novelas e dos filmes. Laura Cardoso ajudou a construir uma tradição de interpretação que atravessou diferentes épocas da cultura brasileira.
Um legado que permanece
Laura Cardoso deixa uma carreira de 82 anos e centenas de personagens construídos no rádio, no teatro, no cinema e na televisão.
Sua história acompanha a própria evolução da dramaturgia brasileira. Ela começou quando o rádio dominava as casas, chegou à televisão em seus primeiros anos, participou da consolidação das novelas e continuou no cinema e no teatro até a velhice.
Mais do que a quantidade de trabalhos, Laura marcou o público pela dedicação a cada personagem.
Ela interpretou mães, avós, mulheres fortes, personagens populares, figuras dramáticas e personagens de humor. Em todos eles, manteve uma característica própria e uma forma muito particular de interpretar.
A atriz também deixou uma referência profissional para as novas gerações. Sua trajetória mostrou que uma carreira artística pode atravessar décadas sem perder a força quando existe compromisso com o trabalho.
Laura Cardoso morreu aos 98 anos, mas sua presença permanece nas histórias que ajudou a contar. Seus personagens continuam vivos na memória do público, e sua trajetória ocupa um lugar definitivo na história da dramaturgia brasileira

