Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

As eleições deste ano registram um número recorde de eleitores com deficiência. Quase 2 milhões de pessoas declararam alguma deficiência à Justiça Eleitoral e estão aptas a votar. No entanto, apesar do avanço na adaptação dos locais de votação, muitos eleitores ainda encontram obstáculos para exercer o direito ao voto.

Alexandre Prudente, cadeirante, enfrentou esse problema neste domingo (4), no Rio de Janeiro. Ele saiu cedo de casa para votar na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), no Maracanã, na Zona Norte da cidade.

Acompanhado por familiares, Alexandre chegou ao prédio e subiu dois lances de rampa. Depois, usou um elevador até o oitavo andar. No entanto, ao chegar ao local, descobriu que sua seção eleitoral havia mudado novamente.

“Minha seção funcionava na Igreja Metodista [de Vila Isabel] e, na última eleição, me transferiram para a Uerj. Agora, tive que subir essa rampa toda para ir votar. Chegando lá, descobri que me mandaram de volta para a Metodista”, contou.

Além disso, Alexandre não conseguiu consultar pela internet o local de votação antes de sair de casa. Por isso, precisou retornar ao térreo e seguir de carro até a Igreja Metodista, a 1,5 quilômetro da Uerj.

No novo local, ele encontrou filas. Mesmo com direito à prioridade, esperou cerca de uma hora para votar.

“Nunca levei tanto tempo para votar. Da outra vez, foi muito mais rápido. Mas, no fim, consegui deixar meu voto”, afirmou.

Número de eleitores cresce

O número de eleitores com deficiência passou de 1,3 milhão, em 2022, para 1,9 milhão neste ano. Diante desse crescimento, a Justiça Eleitoral ampliou a estrutura de acessibilidade.

Neste ano, os tribunais eleitorais cadastraram 220,5 mil seções eleitorais adaptadas. Em 2022, o número chegava a 156,2 mil.

Segundo a Justiça Eleitoral, a ampliação busca garantir mais autonomia durante a votação.

Entre os eleitores cadastrados, 617 mil declararam dificuldades de locomoção. Outros 319 mil informaram deficiência visual, enquanto 182 mil registraram deficiência auditiva.

Além disso, 64 mil eleitores declararam dificuldades para exercer o voto. A categoria “Outros” reuniu 994.472 registros.

Falta de elevador dificulta votação

Apesar da ampliação dos locais adaptados, alguns eleitores ainda enfrentaram dificuldades neste domingo.

Isaura dos Santos, de 77 anos, por exemplo, usa bengala e tem dificuldade de locomoção. Mesmo assim, precisou subir escadas para votar no Colégio Estadual Senor Abravanel, na Zona Sul do Rio.

“Não tem elevador para a gente subir. E no escuro, com a lâmpada apagada. Como pode uma situação dessa?”, reclamou.

Isaura também criticou a falta de melhorias no local.

“Sempre venho votar, mas melhoria, que é bom, a gente não vê. É daí para pior”, afirmou.

No mesmo colégio, a atriz Isabela Quadros acompanhou a mãe, Maria Lídia Gomes de Matos, de 85 anos.

A psicóloga enfrenta limitações na fala e nos movimentos desde um acidente vascular cerebral. Ainda assim, decidiu participar das eleições.

“A escola não tem estrutura para receber uma pessoa na condição dela, mas, com boa vontade, com a ajuda das pessoas [ela conseguiu votar]. A mesária foi incrível. Sem palavras”, disse Isabela.

Ao deixar o local, Maria Lídia se emocionou durante a entrevista. No fim, resumiu a experiência: “deu tudo certo”.

Justiça Eleitoral vistoria locais

A Justiça Eleitoral reconhece que a acessibilidade continua sendo um desafio. Antes das eleições, o órgão explicou que muitos locais de votação funcionam em escolas públicas ou instituições parceiras.

Como esses espaços podem sofrer mudanças ao longo dos anos, os tribunais regionais eleitorais (TREs) e as zonas eleitorais realizam vistorias periódicas.

Com isso, os órgãos procuram atualizar as informações sobre cada local e identificar possíveis problemas de acessibilidade.

Eleitor pode votar com acompanhante

Além da prioridade no atendimento, as pessoas com deficiência podem entrar na cabine de votação acompanhadas. A medida vale mesmo quando o eleitor não fez uma solicitação antecipada.

Nesse caso, o acompanhante precisa ter pelo menos 18 anos. Além disso, não pode trabalhar para a Justiça Eleitoral, partidos políticos ou coligações.

As urnas eletrônicas também oferecem recursos de acessibilidade. O equipamento conta com teclado em braile para pessoas cegas ou com baixa visão.

Além disso, a urna pode fornecer instruções por áudio. Para utilizar o recurso, o eleitor precisa usar fones de ouvido fornecidos pela Justiça Eleitoral.

Acessibilidade ainda exige atenção

Portanto, o aumento no número de locais adaptados representa um avanço. No entanto, os relatos de eleitores mostram que ainda existem problemas de estrutura, informação e deslocamento.

Garantir o direito ao voto, por isso, exige mais do que equipamentos adaptados. A Justiça Eleitoral também precisa assegurar que os eleitores encontrem locais acessíveis, recebam informações corretas e consigam chegar às urnas com autonomia e segurança.

 

Informações: Agência Brasil

Redação Fatos Fontes

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