Em uma época marcada por telas, filtros e pela busca constante da imagem perfeita, Santos abre espaço para desacelerar. A partir de junho, a cidade recebe uma experiência que vai além do aprendizado técnico: um mergulho na fotografia analógica como forma de redescobrir a imagem de maneira mais sensível, tátil e, sobretudo, off-line.
Com duração de três meses, o Curso de Fotografia Analógica: do Registro à Cópia será conduzido pelo fotógrafo argentino José Alberto Sarquis, radicado em Santos e com mais de quatro décadas dedicadas à arte da fotografia.
Nascido em 1949 e criado em Villa Celina, bairro operário de Buenos Aires, Sarquis construiu uma trajetória marcada pela persistência e pela paixão pela imagem.
“Meus pais eram pessoas sensíveis, mas não tiveram acesso a grandes estudos. O interesse artístico foi algo que nasceu comigo”, relembra.
Das palavras à fotografia
Antes da fotografia, vieram as palavras. Ainda jovem, Sarquis encontrou na escrita sua primeira forma de expressão.
“Era uma coisa de adolescente, poemas, tentativas de expressar sentimentos, mas continuo escrevendo até os dias de hoje”, conta.
Foi somente na década de 1970, ao ingressar em um curso de Cinema e Fotografia, que a imagem passou a ocupar o centro de sua trajetória.
Entre dois empregos durante o dia e as aulas à noite, ele descobriu o elemento que definiria sua carreira.
“A grande sacada da fotografia é a luz. Foi ali que comecei a entender isso.”
A fotografia surgiu como uma alternativa possível diante das limitações do cinema, mas rapidamente se transformou em uma linguagem própria. Em casa, montou um laboratório, revelou filmes, ampliou imagens e passou a dominar todas as etapas do processo.
“Eu fazia tudo. Fotografava, revelava e ampliava. Era um processo inteiro dentro de casa.”
A chegada ao Brasil e o encontro com Santos
No final da década de 1970, Sarquis decidiu mudar de país. Ao chegar ao Brasil, enfrentou desafios e iniciou sua carreira fotografando famílias em condomínios residenciais.
Enquanto uma equipe fazia o contato com os moradores, ele registrava momentos que se transformavam em lembranças afetivas.
“Lembro que fazia uma foto de cortesia para o zelador do prédio, como forma de agradecimento por permitir nossa entrada”, recorda.
Morando inicialmente em São Paulo, passou a trabalhar em diversas cidades do Estado até chegar a Santos, nos anos 1980.
A conexão com a cidade foi imediata.
Após o término dos trabalhos, decidiu permanecer na região. Pouco tempo depois, conheceu o Clube Foto Amigos de Santos, onde se tornou diretor e passou a lecionar.
“Ensinar acabou se tornando uma parte fundamental da minha vida.”
Ao longo da carreira, estima ter formado cerca de mil alunos. Também registrou centenas de pessoas, paisagens da Baixada Santista e eventos históricos, como a Encenação da Fundação da Vila de São Vicente, considerada o maior espetáculo em areia de praia do mundo.
Uma imersão completa no universo analógico
Agora, toda essa experiência será compartilhada em um novo formato.
Com turmas reduzidas e aulas realizadas em seu estúdio, no bairro Boqueirão, o curso propõe uma imersão completa na fotografia analógica, desde o clique até a ampliação final da imagem.
Um dos destaques é o laboratório criativo, que Sarquis costuma chamar de “Photoshop do século XX”. Nesse espaço, os participantes poderão interferir manualmente nas fotografias e compreender a imagem como expressão artística, muito além do aspecto técnico.
Para o fotógrafo, o resgate da fotografia analógica representa uma reconexão com a essência da imagem.
“Ver a imagem aparecer no papel, aos poucos, é algo quase mágico. É muito diferente de apertar um botão e ter tudo pronto na hora.”
Segundo ele, a proposta não é voltar ao passado, mas reencontrar uma experiência que continua relevante.
“Quando falo dessa volta às origens, prefiro pensar menos como passado e mais como reencontro. Para quem já viveu isso, é uma retomada prazerosa e afetiva. Para os mais jovens, pode ser uma descoberta fascinante.”
Um convite para desacelerar
Mais do que ensinar fotografia, o curso busca proporcionar uma pausa no ritmo acelerado da vida digital.
É uma oportunidade de observar com mais atenção, experimentar, errar, esperar e construir cada imagem de forma consciente.
“Para além de profissão, a fotografia é linguagem. É a forma como me expresso, como vejo o mundo, como me vejo e como vejo as pessoas. Isso, para mim, é essencial.”
Em um cenário de excesso de imagens e conexões permanentes, a proposta surge como um convite raro para desacelerar e redescobrir o prazer do processo criativo e da convivência.
“Mesmo quem nunca viveu essa prática pode sentir uma espécie de nostalgia. É como se existisse uma conexão com algo que não foi experimentado diretamente, mas que faz sentido de alguma forma. E esse retorno traz ganhos concretos para o presente, principalmente no campo artístico”, conclui.
Serviço
Curso de Fotografia Analógica: do Registro à Cópia
Professor: José Alberto Sarquis
Formato: Presencial, com turmas reduzidas
Início: Junho de 2026
Inscrições: Instagram @josealbertosarquis
Informações: (13) 99611-0472

