Todos os anos, o Brasil celebra o 7 de Setembro com desfiles, cerimônias cívicas e referências à cena em que Dom Pedro teria proclamado a Independência às margens do riacho do Ipiranga, em São Paulo. No entanto, historiadores destacam que a ruptura com Portugal não aconteceu em um único dia.
O processo começou anos antes e envolveu mudanças políticas, interesses econômicos, revoltas regionais e disputas entre diferentes grupos da sociedade. Além disso, os conflitos continuaram depois de 1822, enquanto o novo país tentava consolidar seu território e organizar suas instituições.
Um Brasil ainda sem identidade nacional
No início do século XIX, o território brasileiro fazia parte do Império Português e reunia regiões com fortes diferenças políticas, econômicas e culturais. Muitos habitantes mantinham vínculos mais próximos com suas próprias províncias do que com uma ideia de Brasil como nação.
Segundo Adriana Schmidt, professora de história do Brazilian International School (BIS), a sociedade também apresentava uma profunda desigualdade. A economia dependia da produção agroexportadora e do trabalho escravizado, enquanto grupos ligados à propriedade da terra, ao comércio e à administração concentravam o poder político.
A chegada da família real portuguesa ao Rio de Janeiro, em 1808, mudou esse cenário. Diante das invasões napoleônicas, Dom João e a Corte portuguesa transferiram a sede da monarquia para o Brasil.
A abertura dos portos às nações amigas e a criação de instituições administrativas, culturais e científicas aumentaram a importância do território dentro do Império.
“Uma das grandes mudanças provocadas pela chegada da Corte foi fazer com que o Brasil deixasse de ocupar uma posição exclusivamente colonial. A presença da monarquia trouxe instituições, circulação de pessoas, investimentos e novas relações comerciais”, explica Adriana.
Revoltas e disputas aumentam a tensão
Nos anos seguintes, diferentes acontecimentos aprofundaram as tensões entre os interesses locais e o poder português.
Em 1815, Portugal elevou o Brasil à condição de Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Dois anos depois, a Revolução Pernambucana mostrou que parte da população já defendia projetos políticos que questionavam a monarquia e o domínio português.
Em 1820, a Revolução do Porto mudou novamente o cenário. O movimento liberal exigiu o retorno da Corte para Portugal e a convocação de Cortes Constituintes. As decisões tomadas em Lisboa também ameaçaram a autonomia que o Brasil havia conquistado desde 1808.
Dom João VI retornou a Portugal em 1821 e deixou o filho, Pedro de Alcântara, como príncipe regente. Em seguida, as Cortes portuguesas exigiram que Pedro também deixasse o Brasil.
A resposta veio em 9 de janeiro de 1822, quando o príncipe decidiu permanecer no país. O episódio ficou conhecido como Dia do Fico e fortaleceu os grupos que defendiam a autonomia brasileira.
“É importante não imaginar a Independência como uma decisão tomada de repente por Dom Pedro. Quando chegamos a 1822, já existia uma conjuntura de tensão política e diferentes interesses em disputa”, afirma Roberto Carlos Simões, professor de história do Progresso Bilíngue.
O que aconteceu no Ipiranga
Em 7 de setembro de 1822, Dom Pedro retornava de Santos para São Paulo quando recebeu correspondências que mostravam o agravamento da crise com Portugal.
As Cortes de Lisboa exigiam seu retorno e pressionavam pela prisão de José Bonifácio, um dos principais defensores da autonomia brasileira. Ao mesmo tempo, Maria Leopoldina, então princesa regente, e José Bonifácio defendiam uma reação firme diante das decisões portuguesas.
Nesse contexto, Dom Pedro declarou a separação política do Brasil.
A versão mais conhecida do episódio apresenta o príncipe às margens do riacho do Ipiranga, levantando a espada e proclamando “Independência ou Morte!”. Porém, historiadores não encontram registros que confirmem todos os detalhes dessa narrativa.
A imagem que o público conhece também ganhou força décadas depois. Pedro Américo terminou a pintura “Independência ou Morte” em 1888, 66 anos depois do episódio.
A obra apresenta uma cena grandiosa e idealizada, com Dom Pedro e sua comitiva montados em cavalos. Entretanto, pesquisadores questionam essa representação e apontam que as condições da viagem pela Serra do Mar provavelmente favoreceriam o uso de mulas.
“A pintura ajudou a transformar o momento em um dos maiores símbolos da identidade nacional, mas não deve ser entendida como uma fotografia do acontecimento”, explica Glenda Cândido, professora da Escola Internacional de Alphaville.
A Independência não terminou em 7 de Setembro
Embora a data represente o principal símbolo da ruptura com Portugal, os conflitos continuaram.
Entre 1822 e 1824, forças brasileiras e portuguesas entraram em combate em regiões como Bahia, Maranhão, Pará e Piauí. O novo governo precisou organizar campanhas militares e negociar politicamente para consolidar o controle sobre o território.
Portugal reconheceu a Independência brasileira apenas em 1825, por meio do Tratado de Paz e Aliança, com mediação britânica.
Além disso, o novo Estado manteve estruturas importantes do período colonial. A escravidão continuou até 1888, enquanto o poder político permaneceu concentrado entre grupos socialmente privilegiados.
“A Independência brasileira tem uma característica contraditória: ela foi, ao mesmo tempo, ruptura e continuidade”, afirma José Henrique Porto, professor de História da Escola Bilíngue Aubrick.
A construção de um novo país
Com a Independência, o Brasil passou a organizar suas próprias instituições. A Constituição de 1824 estabeleceu uma monarquia constitucional e colocou Dom Pedro I como primeiro imperador.
No entanto, o novo país ainda enfrentava grandes desigualdades. O direito ao voto dependia de critérios de renda, as mulheres não participavam das eleições e milhões de pessoas continuavam submetidas à escravidão.
Por isso, os historiadores tratam a Independência como um processo que ultrapassa a data comemorada no calendário.
“Mais do que um acontecimento encerrado em 7 de setembro de 1822, a Independência deve ser entendida como um processo de construção do Estado e da própria ideia de Brasil”, completa Porto.
Assim, o 7 de Setembro marca uma ruptura decisiva com Portugal, mas a formação do Brasil como país continuou por décadas. A história da Independência, portanto, não termina no Ipiranga: ela também passa pelas guerras, pelas disputas políticas e pela construção — ainda incompleta — de uma identidade nacional.

