Quem olha para o mar de Santos pode estranhar a tonalidade escura da água, principalmente em alguns períodos do ano. A aparência costuma gerar dúvidas e até a impressão de que o mar está sujo. No entanto, a cor resulta de uma combinação de fatores naturais que fazem parte da dinâmica da região.
Santos fica em uma área de encontro entre rios, canais, manguezais e o oceano. Esse sistema transporta sedimentos e matéria orgânica para a costa e interfere diretamente na aparência da água.
Rios e manguezais ajudam a mudar a cor
Os rios que chegam à região carregam areia, argila, folhas em decomposição e outros materiais. Quando esse conteúdo alcança o mar, a água pode adquirir uma tonalidade mais escura ou acinzentada.
Os manguezais também contribuem para esse processo. A decomposição da matéria orgânica libera pigmentos naturais que alteram a aparência da água.
A geologia local completa esse cenário. A erosão das rochas e da cobertura da Serra do Mar transporta sedimentos minerais para áreas mais baixas. Parte desse material chega aos rios, canais e ao mar, reforçando a coloração característica da região.
Chuva, vento e maré também interferem
A aparência do mar muda conforme as condições ambientais. Chuvas fortes aumentam o volume de água que chega pelos rios e canais e, consequentemente, podem levar mais sedimentos para a costa.
Frentes frias, ventos, marés e correntes marítimas também movimentam a água e distribuem esses materiais de maneiras diferentes.
Já durante períodos mais longos sem chuva e sem frentes frias, a quantidade de sedimentos que chega ao mar diminui. Com isso, a água pode apresentar uma aparência mais clara.
Por que Santos tem um mar diferente de outras praias?
A localização geográfica ajuda a explicar a diferença entre Santos e outras cidades do litoral paulista.
Em algumas praias do litoral norte, por exemplo, rios e estuários exercem menor influência sobre a costa. A formação do fundo marinho e a conservação da vegetação próxima ao litoral também variam de uma região para outra.
Por isso, cada trecho do litoral apresenta características próprias, que podem alterar a cor e a transparência da água.
Mar escuro não significa água imprópria
A cor do mar não permite determinar se uma praia está própria ou imprópria para banho.
Uma água escura pode apresentar condições adequadas para os banhistas, enquanto um mar aparentemente azul e transparente pode apresentar contaminação que ninguém consegue identificar apenas pela aparência.
Por isso, quem pretende entrar no mar deve consultar a classificação oficial de balneabilidade antes do banho.
Cetesb acompanha a qualidade das praias
A Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) realiza análises periódicas para avaliar as condições das praias.
Em Santos, o monitoramento ocorre em sete pontos:
- Ponta da Praia;
- Aparecida;
- Embaré;
- Boqueirão;
- Gonzaga;
- José Menino — Rua Olavo Bilac;
- José Menino — Avenida Frederico Ozanan.
A Cetesb informa que Santos apresenta, historicamente, condições predominantemente ruins ou péssimas. Desde 2023, porém, os resultados mostram uma melhora gradual, com mais trechos classificados como regulares e menos áreas nas condições mais críticas.
Análise verifica presença de bactérias
A Cetesb realiza coletas semanais em 175 pontos do litoral paulista. Os laboratórios analisam as amostras e utilizam a concentração de enterococos como um dos principais indicadores de qualidade da água, seguindo os critérios da Resolução Conama nº 274/2000.
O órgão considera os resultados de cinco semanas consecutivas para definir a classificação.
Quando as análises registram mais de 100 colônias de bactérias por 100 mililitros de água, o local recebe classificação imprópria para banho.
Em Santos, fatores como lançamento de esgoto, ocupações irregulares, alta densidade populacional e poluição carregada pelas chuvas podem prejudicar a qualidade microbiológica da água.
Chuva forte exige atenção
Após períodos de chuva intensa, a população deve redobrar os cuidados. As águas que circulam pelos canais de drenagem podem carregar diferentes tipos de poluentes até o mar.
Além disso, a abertura das comportas dos canais ajuda a evitar alagamentos, mas pode provocar mudanças temporárias nas condições microbiológicas da água.
Por esse motivo, a recomendação é evitar o banho nas primeiras 24 horas após chuvas fortes e consultar a classificação da Cetesb.
A cor natural não elimina os impactos ambientais
Embora os fatores naturais expliquem grande parte da tonalidade escura do mar, Santos também enfrenta problemas ambientais.
A urbanização, as atividades portuárias e industriais, a redução de áreas de manguezal e o lançamento de esgoto exercem pressão sobre o ambiente costeiro.
Outro desafio envolve os microplásticos. Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e publicado em 2023 identificou concentrações desse material no estuário de Santos.
A pesquisa analisou ostras e mexilhões coletados na região da balsa Santos-Guarujá, na praia do Góes e na ilha das Palmas. Na área da balsa, os pesquisadores encontraram as maiores concentrações, com média de 12 a 16 partículas de microplástico por grama de tecido. Um dos mexilhões apresentou mais de 300 partículas por grama.
As fibras têxteis apareceram entre os materiais mais encontrados, com possível relação com o lançamento de esgoto doméstico.
Como aproveitar a praia com mais segurança
Antes de entrar no mar, vale conferir a classificação de balneabilidade da praia escolhida. A aparência da água pode ajudar a perceber mudanças no ambiente, mas não substitui a análise oficial.
A recomendação inclui ainda:
- Evitar o banho nas primeiras 24 horas após chuvas intensas;
- Não entrar na água de canais, córregos e rios que desembocam nas praias;
- Não ingerir água do mar;
- Descartar corretamente lixo e resíduos;
- Consultar a classificação de balneabilidade antes do banho.
Afinal, por que o mar de Santos fica escuro?
A resposta envolve uma combinação de fatores. Rios, manguezais, sedimentos, minerais, chuvas, ventos, marés e correntes marítimas influenciam a aparência da água.
Portanto, mar escuro não significa automaticamente mar sujo. Para saber se a praia está própria para banho, o caminho mais seguro é consultar os dados de balneabilidade e seguir as recomendações dos órgãos ambientais.

