Perder muitos quilos pode trazer benefícios importantes para a saúde, mas também provocar mudanças visíveis no rosto. A redução do tecido adiposo facial pode deixar têmporas e olheiras mais marcadas, diminuir o volume das maçãs do rosto e evidenciar a flacidez e as alterações no contorno da mandíbula.
O assunto ganhou destaque com o aumento do uso de medicamentos para tratamento da obesidade, especialmente os chamados agonistas de GLP-1. No entanto, as transformações faciais após grandes perdas de peso não são recentes e pacientes que passaram por cirurgia bariátrica já relatavam essas mudanças.
Segundo a Dra. Erika Kugler Nóbrega, cirurgiã-dentista, especialista em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial e em Harmonização Orofacial, é importante diferenciar o efeito do medicamento da própria perda significativa de peso.
“O que vemos não é uma alteração exclusiva de um medicamento, nem necessariamente causada pelo medicamento em si. É muito mais coerente falar em alterações faciais associadas à grande perda de peso”, explica.
Por que o rosto muda depois do emagrecimento?
A face possui diferentes compartimentos de gordura que contribuem para o volume, a sustentação e o contorno facial. Quando uma pessoa emagrece de forma expressiva, essa gordura também pode diminuir.
A pele, porém, nem sempre consegue acompanhar essa redução na mesma velocidade. Como resultado, algumas regiões podem apresentar maior flacidez ou perda de definição.
O resultado varia de pessoa para pessoa. Idade, genética, anatomia facial, qualidade da pele, exposição solar, hábitos de vida e estado nutricional podem influenciar as mudanças.
Além disso, a quantidade de peso perdido e a velocidade do emagrecimento também são fatores relevantes.
Mudanças já eram observadas após a cirurgia bariátrica
Antes da popularização das chamadas “canetas emagrecedoras”, pacientes que passaram por cirurgia bariátrica já relatavam alterações semelhantes.
“Esses pacientes nos ensinaram algo importante: não é necessário usar semaglutida para desenvolver essas alterações. O rosto responde à transformação corporal e à perda importante de tecido adiposo, independentemente do método utilizado para chegar a esse emagrecimento”, afirma Erika.
Assim, a relação entre emagrecimento expressivo e mudanças na aparência facial não deve ser atribuída exclusivamente aos medicamentos utilizados para perda de peso.
Estudos avaliam relação entre emagrecimento e alterações faciais
Pesquisas recentes também começaram a investigar o impacto da perda de peso na face.
Uma revisão sistemática publicada em 2024 encontrou associação entre grandes perdas de peso, redução regional da gordura facial e aumento da flacidez.
Já um estudo publicado em 2025 analisou exames de imagem de 20 pacientes que utilizavam medicamentos agonistas de GLP-1. Os pesquisadores observaram uma associação entre a quantidade de peso perdida e a redução do volume superficial da região média da face.
No estudo, cada 10 quilos perdidos estiveram associados, em média, a uma redução de aproximadamente 7% desse volume. Como a pesquisa avaliou um grupo pequeno de pacientes, os resultados ainda precisam ser confirmados por estudos maiores.
Uma revisão científica publicada em 2026 também descreveu alterações de volume, flacidez e contorno facial relacionadas ao emagrecimento associado a medicamentos que atuam nos receptores de GLP-1.
“Emagreci, mas parece que envelheci”
A mudança na aparência pode gerar uma sensação contraditória. Enquanto o paciente comemora a perda de peso e os benefícios para a saúde, também pode perceber o rosto mais fino ou envelhecido.
“São pacientes felizes porque emagreceram, melhoraram a saúde e recuperaram a autoestima corporal, mas que olham para o rosto e dizem: ‘parece que eu envelheci’”, conta a especialista.
Essa percepção, entretanto, não significa que o paciente deva interromper ou modificar o tratamento para emagrecimento.
A orientação é conversar com o profissional responsável antes de fazer qualquer mudança no uso dos medicamentos.
Nem toda perda de volume precisa de preenchimento
Uma das principais recomendações da especialista é evitar a tentativa de repor todo o volume perdido com procedimentos estéticos.
“Não precisamos tratar um rosto emagrecido simplesmente enchendo-o de ácido hialurônico. O objetivo é identificar o que realmente está causando aquele aspecto cansado ou envelhecido”, explica Erika.
Em alguns casos, a principal queixa pode ser a flacidez. Em outros, a perda de volume. Também existem situações em que os dois fatores aparecem juntos.
A avaliação individual pode indicar tratamentos voltados à qualidade da pele, estímulo de colágeno, melhora da flacidez ou reposição pontual de volume.
Quando há excesso significativo de pele, uma avaliação cirúrgica também pode ser indicada.
“O que eu não recomendo é tentar compensar cada perda de volume colocando preenchimento progressivamente. O rosto ainda está mudando, e existe o risco de perdermos a referência de proporção e acabarmos com uma face artificial”, alerta.
Emagrecimento deve ser acompanhado de forma ampla
Para a Dra. Erika, o aumento das grandes perdas de peso também traz uma nova perspectiva sobre os resultados do tratamento da obesidade.
“Durante muito tempo, o sucesso do tratamento da obesidade foi representado quase exclusivamente pelo número da balança. Hoje começamos a entender que existe uma transformação muito mais ampla.”
Nesse contexto, observar as mudanças do rosto pode fazer parte de uma abordagem mais completa, que considere saúde, estética, proporção e identidade.
“Grandes emagrecimentos se tornaram mais acessíveis e frequentes, e agora precisamos entender como preservar saúde, identidade e harmonia durante esse processo”, conclui.
Sobre a especialista
A Dra. Erika Kugler Nóbrega é cirurgiã-dentista, especialista em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial e em Harmonização Orofacial.
Atua na avaliação das estruturas e transformações da face, incluindo perda de volume, flacidez, alterações de contorno e qualidade da pele. Seu trabalho tem como foco o planejamento individualizado e a preservação da identidade, das proporções e da naturalidade facial.
Também atua no diagnóstico e tratamento de condições da face, dos maxilares e da articulação temporomandibular (ATM), além de procedimentos cirúrgicos bucomaxilofaciais.

