Aos 19 anos, Carolina Aranha estava diante de um dos momentos mais importantes de sua vida: a prova do vestibular para Medicina da Unicamp. No entanto, em novembro de 2015, precisou interromper o exame depois de apresentar os primeiros sintomas de uma doença que, até então, desconhecia.
A jovem deixou a prova e foi para o hospital. Meses depois, entre o fim de 2015 e o início de 2016, veio o diagnóstico de Esclerose Múltipla.
A notícia trouxe dúvidas e também ouviu opiniões de pessoas que acreditavam que a doença poderia impedir Carolina de seguir a carreira médica. Ela, porém, decidiu continuar.
Com o apoio da família, especialmente do pai, manteve os estudos e persistiu no objetivo de cursar Medicina. Depois de algumas tentativas no vestibular, conseguiu ingressar na Universidade Metropolitana de Santos (Unimes).
Hoje, aos 30 anos, Carolina é médica generalista e trabalha na área de emergência em Santos. Ao mesmo tempo, convive há cerca de uma década com a Esclerose Múltipla.
Esclerose Múltipla afeta o sistema nervoso central
A Esclerose Múltipla é uma doença crônica, inflamatória e de origem autoimune que afeta o Sistema Nervoso Central. Nesses casos, o sistema imunológico ataca estruturas do próprio organismo, incluindo a bainha de mielina, que protege as fibras nervosas.
Quando a mielina sofre danos, a comunicação entre o cérebro e outras partes do corpo pode ser prejudicada. Por isso, os sintomas variam de acordo com a região afetada.
Entre os sinais estão alterações visuais, formigamento, fraqueza muscular, desequilíbrio e fadiga. A doença costuma ser diagnosticada em adultos jovens e é mais frequente em mulheres.
No Brasil, estima-se que cerca de 40 mil pessoas convivam com a Esclerose Múltipla. A doença também possui uma data nacional de conscientização: 30 de agosto. A data foi instituída pela Lei nº 11.303/2006.
O diagnóstico mudou a rotina, mas não os planos
Carolina recebeu o diagnóstico da forma Remitente-Recorrente da Esclerose Múltipla. Esse tipo é caracterizado pela ocorrência de surtos, quando novos sintomas aparecem ou sinais anteriores pioram.
De acordo com o protocolo do Ministério da Saúde, um surto corresponde a um evento neurológico que dura pelo menos 24 horas e ocorre na ausência de infecção ou febre.
Apesar das mudanças provocadas pela doença, Carolina não abandonou seus projetos.
Durante parte da trajetória, entretanto, o medo dos sintomas influenciou diretamente sua rotina. O calor, por exemplo, tornou-se uma preocupação.
Calor exigiu adaptação em Santos
Viver em uma cidade de clima quente como Santos trouxe um desafio adicional.
A elevação da temperatura corporal pode intensificar temporariamente alguns sintomas da Esclerose Múltipla. Esse fenômeno é conhecido como fenômeno de Uhthoff.
Por causa do receio de sentir os sintomas e também da fadiga, Carolina passou anos sem praticar exercícios físicos.
A mudança aconteceu depois de conversar com seu neurologista, Dr. Leonardo de Deus. Com orientação profissional, ela passou a enxergar a atividade física de outra maneira.
Atualmente, musculação e beach tennis fazem parte da rotina da médica.
Ela procura manter uma vida ativa, mas respeita os limites do próprio corpo.
Experiência como paciente ajuda no pronto-socorro
A experiência pessoal também passou a fazer parte da atuação profissional de Carolina.
No pronto-socorro, ela atende pacientes que chegam com sintomas neurológicos e, em alguns casos, apresentam suspeita de um surto de Esclerose Múltipla.
Essa vivência permite que ela compreenda não apenas os aspectos clínicos, mas também o medo de quem recebe um diagnóstico ou enfrenta sintomas desconhecidos.
“Muitas pessoas chegam assustadas com os sintomas repentinos. Por vivenciar a doença e conhecer o caminho do tratamento, consigo tranquilizar o paciente, realizar a abordagem inicial necessária e orientar os passos seguintes até o acompanhamento com a neurologia”, conta.
A identificação rápida dos sintomas e o encaminhamento adequado são importantes para a investigação e o tratamento. O Ministério da Saúde destaca que o diagnóstico da Esclerose Múltipla é complexo e pode envolver exames como ressonância magnética e análise do líquor.
Médica escolheu a Ortopedia
Embora tenha desenvolvido uma relação próxima com a Neurologia por causa da própria doença, Carolina decidiu seguir outro caminho profissional.
Ela se prepara para fazer especialização em Ortopedia.
A escolha, segundo a médica, permite separar os dois papéis. A Neurologia permanece relacionada à sua experiência como paciente. Já a carreira profissional será direcionada ao sistema musculoesquelético.
Agosto Laranja reforça importância da informação
A história de Carolina também se conecta à campanha Agosto Laranja, que busca ampliar a conscientização sobre a Esclerose Múltipla.
A iniciativa procura combater informações equivocadas e estimular o reconhecimento dos sinais da doença. Além disso, chama atenção para a importância do diagnóstico e do tratamento.
O Dia Nacional de Conscientização sobre a Esclerose Múltipla é celebrado em 30 de agosto. Segundo o Ministério da Saúde, a data tem como objetivo ampliar a visibilidade da doença e alertar para a importância do diagnóstico precoce e do tratamento adequado.
Para Carolina, informação também é uma forma de acolhimento.
“A mensagem mais importante para quem recebe esse diagnóstico é buscar a resiliência. A Esclerose Múltipla não define quem você é e não deve ser motivo para desistir dos seus sonhos. É plenamente possível ter qualidade de vida, exercer sua profissão e construir um futuro com bem-estar.”

