Foto: Caroline Morais/Ministério da Saúde

A semaglutida e a tirzepatida ganharam popularidade pelo controle da glicemia e pela perda de peso. Agora, pesquisas também investigam outro possível efeito: a redução de marcadores ligados à inflamação.

Estudos clínicos já registraram queda de indicadores inflamatórios em pessoas que utilizam esses medicamentos.

Ainda assim, os pesquisadores não sabem quanto desse resultado vem diretamente dos remédios. A perda de peso e a melhora do metabolismo também podem explicar parte importante do efeito.

Ciência ainda investiga ação contra a inflamação

Os medicamentos que atuam sobre o GLP-1 podem provocar mudanças metabólicas importantes. Porém, os estudos ainda não comprovam que eles tenham uma ação anti-inflamatória direta no sistema imunológico.

O endocrinologista Clayton Macedo, professor da Unifesp e diretor de comunicação da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), destaca que a ciência ainda não consegue separar com precisão os efeitos do medicamento daqueles provocados pelo emagrecimento.

Por isso, os pesquisadores tratam a possível ação direta contra a inflamação como uma hipótese.

Inflamação também protege o organismo

A inflamação faz parte do sistema de defesa do corpo. O organismo utiliza esse mecanismo para responder a infecções, lesões e outros tipos de agressão.

O problema aparece quando a resposta permanece ativa durante muito tempo.

Segundo o endocrinologista Julio Batatinha, doutorando no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, o organismo precisa da inflamação para se recuperar. O excesso, porém, pode favorecer problemas de saúde.

A obesidade, algumas doenças autoimunes e alterações metabólicas podem manter uma inflamação crônica de baixo grau.

Exames ajudam a acompanhar a inflamação

Médicos podem acompanhar alguns marcadores para avaliar processos inflamatórios.

Entre os principais estão:

  • proteína C-reativa (PCR);
  • proteína C-reativa ultrassensível (PCRus);
  • interleucina 6 (IL-6);
  • TNF-alfa.

Nenhum desses exames, isoladamente, permite afirmar que uma pessoa apresenta uma “inflamação generalizada”.

Semaglutida reduz proteína C-reativa

Um dos resultados mais relevantes envolve a proteína C-reativa ultrassensível, conhecida como PCRus.

Esse marcador apresenta relação com o risco cardiovascular. No estudo SELECT, pesquisadores acompanharam cerca de 17,6 mil pessoas com sobrepeso ou obesidade e doença cardiovascular, mas sem diabetes.

Após 104 semanas, o grupo que utilizou semaglutida apresentou uma redução de aproximadamente 38% na PCRus em comparação com o grupo que recebeu placebo.

Os pesquisadores observaram a queda do marcador já nas primeiras semanas do tratamento.

Esse resultado chamou atenção porque os participantes ainda tinham perdido relativamente pouco peso naquele momento.

Perda de peso pode explicar parte do resultado

A obesidade, principalmente quando envolve grande quantidade de gordura visceral, favorece alterações metabólicas e inflamatórias.

O tecido adiposo disfuncional libera substâncias que participam dos processos inflamatórios. A obesidade também pode aumentar a resistência à insulina.

Quando a pessoa perde peso, reduz a gordura visceral e melhora o metabolismo, o organismo tende a diminuir esse estado inflamatório.

Por isso, os pesquisadores consideram o emagrecimento uma das principais explicações para a queda dos marcadores.

Semaglutida também mostra resultados no fígado

Os estudos também investigam os efeitos da semaglutida em doenças hepáticas.

Na MASH, o paciente apresenta acúmulo de gordura no fígado, inflamação e lesão das células hepáticas.

O estudo ESSENCE avaliou pessoas com MASH e fibrose hepática. Dados divulgados pela Novo Nordisk apontaram resolução da esteato-hepatite em 63% dos participantes tratados com semaglutida.

O resultado reforça o interesse científico pelos efeitos metabólicos e inflamatórios do medicamento.

Tirzepatida também entra nas pesquisas

A tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, também aparece em estudos que relacionam obesidade, metabolismo e doenças inflamatórias.

Pesquisadores avaliaram a combinação de tirzepatida e ixequizumabe em pessoas com psoríase, artrite psoriásica e excesso de peso.

Os estudos TOGETHER-PsO e TOGETHER-PsA apontaram melhora das manifestações das doenças e redução do peso.

Os pesquisadores, porém, não desenharam os estudos para avaliar a tirzepatida como tratamento isolado da psoríase.

Pesquisas avaliam efeitos no intestino e no cérebro

Outras linhas de pesquisa investigam os possíveis efeitos dos medicamentos em doenças inflamatórias intestinais.

Os cientistas também estudam possíveis relações entre os agonistas de GLP-1 e processos inflamatórios no cérebro.

Essas pesquisas ainda precisam de novos resultados antes que os especialistas possam confirmar qualquer benefício específico.

O que os cientistas ainda não sabem

A principal dúvida envolve a origem do efeito anti-inflamatório observado nos estudos.

Os medicamentos realmente atuam diretamente nas células do sistema imunológico? Ou a maior parte do resultado acontece porque o paciente perde peso e melhora a saúde metabólica?

Os pesquisadores ainda não conseguem responder com segurança.

Também faltam estudos para descobrir se os mesmos efeitos aparecem em pessoas que não têm obesidade ou diabetes.

Por enquanto, as evidências mostram uma associação entre semaglutida, tirzepatida, perda de peso, melhora metabólica e redução de determinados marcadores inflamatórios.

A possibilidade de uma ação anti-inflamatória direta continua em investigação.

Redação Fatos Fontes

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